Coluna – Jornalista e atleta quer pódio e ser voz no paradesporto


A Olimpíada chegou ao fim no último domingo (8), mas Tóquio (Japão) segue em evidência no esporte mundial. A partir do próximo dia 24, a capital japonesa recebe a 16ª edição da Paralimpíada. Parte da delegação brasileira já chegou em território nipônico, iniciando o processo de aclimatação em Hamamatsu, cidade a 250 quilômetros do palco do evento. As equipes de natação, halterofilismo, tênis de mesa e goalball embarcaram na madrugada da última quinta-feira (5). Nas primeiras horas de sábado (7), foi a vez do time do atletismo. No dia seguinte, viajaram as seleções de tiro com arco, judô, remo, vôlei sentado, bocha, futebol de 5 e tênis em cadeira de rodas.

Para uma das atletas do vôlei sentado, o fim de semana não foi especial “apenas” pela viagem a Tóquio. Horas antes de sair do Centro de Treinamento Paralímpico (CTP), em São Paulo, ainda no sábado (7), em direção ao aeroporto de Guarulhos (SP), Luiza Fiorese colou grau em Jornalismo, em cerimônia realizada online. A profissão entrou na vida da capixaba, de 24 anos, como uma forma de mantê-la ligada ao esporte, após enfrentar um osteossarcoma (tipo de câncer ósseo) no fêmur esquerdo, quando tinha 15 anos. Depois de cinco cirurgias, a jovem teve de substituir parte dos ossos da perna por uma prótese interna – o que inviabilizou a continuidade na modalidade pela qual era apaixonada: o handebol.

“Eu queria que minha vida não fosse desgarrada do esporte. Na época, parece que me arrancaram o handebol. Então, se não posso praticar, quero falar sobre esporte. Foi aí que tive a ideia de fazer Jornalismo e me apaixonei pela profissão”, conta Luiza, à Agência Brasil, explicando que o contato com o esporte paralímpico não veio de imediato. “Quando entrei para o Jornalismo, eu tinha o sonho de ir a Tóquio cobrir a Olimpíada. Mesmo uma pessoa com deficiência, não conhecia de fato as modalidades. Até por isso, fiquei seis anos longe do esporte. Então, sempre brigo muito para que as pessoas conheçam mais e entendam mais as modalidades paralímpicas e que esse universo abrange muita gente. Não só pessoas que não têm a perna, o braço, que andam de cadeira de rodas ou não enxergam. É um mundo muito maior, que pode abrir portas. Poder me formar e ir para o Japão, como jornalista, faz com que eu me lembre daquele sonho antigo”, completa.

Luiza conheceu o vôlei sentado no fim de 2018, ao participar de um programa de TV no qual também estava a líbero da seleção feminina, Gizele Maria. No começo do ano seguinte, decidiu se aventurar na modalidade. Meses depois, foi convocada pelo técnico José Agtônio Guedes para integrar a equipe nacional, medalhista de prata nos Jogos Parapan-Americanos de Lima (Peru) e classificada para Tóquio. A jovem, que já havia deixado Venda Nova do Imigrante (ES) para morar em Belo Horizonte para estudar, teria uma nova mudança pela frente.

Luíza Fiorese, seleção brasileira de vôlei sentado  - Paralimpíada de Tóquio 2020

A capixaba Luiza Fiorese representará o Brasil no vôlei sentado na Paralimpíada de Tóquio 2020, cuja cerimônia de abertura está programada para o próximo dia 24 de agosto – Alê Cabral/CPB/Direitos Reservados

“Acho que, na minha primeira convocação, ele me chamou visando [a Paralimpíada de] Paris [França, em 2024]. Ele viu que sou nova e alta, então essa questão me ajuda muito. Tenho 1,77 metro e estou entre as três mais altas da seleção. Eu já vinha do esporte, mas do handebol, então ainda tinha alguns vícios do handebol. O técnico da seleção viu que eu tinha potencial e disse que queria me treinar pessoalmente. Ele é de Goiânia, então ele perguntou se eu gostaria de me mudar para lá, que eu tinha uma chance real de ir para Tóquio, mas precisava evoluir em muitos aspectos. Na hora, liguei para os meus pais e disse que estava trancando a faculdade e me mudando, pois queria viver aquilo. Era a chance da vida”, detalha a capixaba.

A pandemia do novo coronavírus (covid-19) adiou os Jogos de Tóquio em um ano. A mudança de data acabou dando mais tempo para Luiza se aprimorar na modalidade e ganhar a confiança da comissão técnica da seleção.

“Quando fui convocada da primeira vez, eu teria cinco meses para evoluir. Claro que não queria essas circunstâncias [pandemia], mas acabei tendo um ano e cinco meses. Mesmo em casa, não deixei de ficar em contato com o esporte. Minha mãe fez um centro de treinamento na garagem de casa. Aproveitei o tempo para evoluir tecnicamente. O grupo me abraçou muito bem. As meninas [da seleção] me ajudaram muito”, relata a jovem.

Apesar da paixão pelo Jornalismo, Luiza reconhece que, no momento, a vida gira em torno do vôlei sentado. O que, segundo ela, não a impede de conciliar as duas profissões e espalhar a palavra do movimento paralímpico enquanto jornalista.

“Quero que esporte e Jornalismo conversem entrei si, atuar falando de esporte paralímpico. Não necessariamente indo para uma emissora, por exemplo. A gente é jornalista nas nossas redes sociais, a internet abriu muito esse campo. Hoje, como jornalista, tenho condição de produzir um conteúdo de qualidade voltado ao esporte paralímpico. Acho que posso ser essa voz”, destaca Luiza. “Consigo ver uma mudança de mentalidade das pessoas em geral, em relação ao preconceito do capacitismo. Vejo que ele é um pouco mais tratado e falado. Como as redes sociais hoje ecoam nossa voz, a gente consegue abordar a nossa insatisfação de falar só sobre histórias de superação. Claro que a gente não tem vergonha de falar sobre nossas histórias e de sermos pessoas com deficiência, mas não nos resumimos a isso. É muito essa a nossa briga. O resumo do atleta paralímpico não é a patologia, mas é resultado, treino, tudo que a gente faz. Acho que ainda precisar mudar muito, mas a mudança não é só midiática. É uma mudança geral, de mentalidade, das pessoas em geral olharem para nós como atletas, não só como uma história de superação. Somos alto rendimento”, completa.

Em Tóquio, Luiza e a seleção feminina buscam a segunda medalha da história do vôlei sentado brasileiro em uma Paralimpíada, após o bronze em 2016, no Rio de Janeiro. O torneio começa no dia 27 de agosto e vai até 5 de setembro. O Brasil está no grupo de Canadá, Itália e do anfitrião Japão. Na outra chave, estão Estados Unidos (ouro na Rio 2016), China (prata há cinco anos e tricampeão paralímpico da modalidade), Comitê Paralímpico Russo e Ruanda.

“A gente imagina que o pódio será entre Brasil, Estados Unidos e Comitê Paralímpico Russo, mas claro que, tratando-se de uma Paralimpíada, toda seleção que competir estará bem preparada. No outro grupo, uma potência pode cair já na primeira fase. A gente vê que tem potencial de ser finalista. Chegando na final, tem o dia, quem está mais inspirado. O treinador costuma falar que a gente pode até perder, mas as nossas adversárias terão que jogar muito para nos vencerem. Estamos trabalhando duro por esse sonho. Queremos muito subir nesse pódio”, concluiu.





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